Superintendente do Sebrae no MA, João Martins, analisa resultado da pesquisa GEM 2015

A pesquisa revelou que a taxa total de empreendedorismo no Brasil atingiu 39,3%.

Superintendente do Sebrae no Maranhão, João Martins

Superintendente do Sebrae no Maranhão, João Martins

A nova pesquisa GEM trouxe como dado importante que a taxa total de empreendedorismo no Brasil alcançou 39,3% em 2015. Ou seja, que 52 milhões de brasileiros com idade entre 18 e 64 anos estavam envolvidos na criação ou manutenção de algum negócio. Em entrevista a O Estado, o diretor- superintendente do Sebrae no Maranhão, João Martins, faz uma avaliação do resultado da pesquisa, levando em conta também o viés da crise e sua implicação em se empreender por necessidade ou por oportunidade.

 

O Estado – A nova pesquisa GEM 2015 mostra uma taxa total de empreendedorismo no Brasil de 39,3%. Qual a relevância desse dado?

João Martins – É interessante informar que essa pesquisa faz um estudo da atividade empreendedora no âmbito mundial. No ano de 2015, 60 países foram objeto dessa pesquisa, os quais representam 83% do PIB mundial. Essa pesquisa é justamente para detectar o impacto da criação de negócios no crescimento e no desenvolvimento desses países. No Brasil, a pesquisa foi realizada nos meses de setembro, outubro novembro com 2 mil entrevistas com a população de 18 a 64 anos, além de entrevistas com 74 especialistas em empreendedorismo. Quando você me pergunta qual a relevância desse fato, considerando 39% de empreendedorismo no Brasil, nós associamos que de dois em cada cinco indivíduos entre 18 e 64 anos, que é faixa etária da população economicamente ativa no Brasil, essas pessoas ou já possuem um negócio ou estão envolvidas na criação de um negócio que vai impactar no crescimento e desenvolvimento da sua região e do país como um todo.

O Estado – É fato afirmar que a crise teve influência ou foi fator preponderante para aumento da taxa de empreendedorismo no país?

João Martins – Sim, nós ao analisarmos a crise precisamos levar em consideração que ela é oportunidade. Mas se você trouxer diretamente para as pessoas que foram impactadas pela crise, queforam demitidas ou observaram restrições ao mercado de trabalho, elas passam a empreender por necessidade. Ou seja, a situação da crise faz com que elas busquem alguma forma de empreender para vender serviços e para vender produtos, até mesmo para que possam sobreviver.

O Estado – Podemos dizer que nesse momento as pessoas estão empreendendo mais por necessidade do que por oportunidade?

João Martins – Uma coisa complementa a outra. O que eu acabei de dizer, a crise também pode ser uma oportunidade. Mas, uma oportunidade iniciada pela necessidade que o indivíduo tem de empreender. Nesse momento, o Brasil é um país muito particular porque tem pessoas empreendendo por necessidade, em função da crise, mas a própria crise é uma oportunidade para que outros possam, inclusive, ampliar seu empreendimento. Nós temos no país pessoas empreendendo por necessidade e por oportunidade, sendo que a crise impacta muito mais no empreendedorismo por necessidade.

O Estado – Há diferença de resultado de quem empreende por necessidade daquele que investe no seu próprio negócio ao vislumbrar uma oportunidade?

João Martins – O resultado para quem empreende por necessidade pode se mensurar pelo fato de que a pessoa em uma situação impactada pela crise está com certeza num ambiente desfavorável. E os resultados não vão ser os mesmos de quem empreende por oportunidade. Porque subtende-se que quem está empreendendo por oportunidade fez um estudo de mercado, fez um plano de negócios, ele se preparou para aquela atividade. Ou seja, ele vislumbrou uma oportunidade e buscou as ferramentas necessárias para atingir seu objetivo e com certeza seus resultados serão melhores. Ao passo que quem está empreendendo por necessidade não teve tempo de se preparar, basicamente se viu com uma situação desfavorável e teve que entrar no mercado para tentar sobreviver e o risco para ele é maior.

O Estado – Embora o brasileiro tenha uma veia empreendedora, o senhor concorda que abrir um negócio no país ainda é um sonho difícil de realizar, tendo em vista a falta de políticas públicas adequadas, o excesso de burocracia para abertura, funcionamento e encerramento dos negócios, alta carga tributária e elevados custos de operação?

João Martins – Sim, no Brasil temos alguns mecanismos no setor público que acabam afetando um pouco o empreendedor. Mas, acreditamos que isso já evoluiu bastante. Hoje nós temos a Lei Geral da Micro e Pequena Empresa e um processo de organização dos empreendedores hoje, que já sabem identificar quem são as instituições apoiadoras que podem contribuir, facilitar e convergir para  determinado espaço onde eles possam alcançar informações e buscar mecanismos que possam facilitar sua vida. Necessário estabelecer comparativos: como era antes, come está hoje e o que se precisa fazer mais. Então acreditamos que com uma participação maior desses empreendedores de forma organizada e buscando uma interlocução com seus representantes no legislativo, temos certeza que o ambiente pode se tornar muito mais favorável para o empreendedor.

O Estado – Há uma receita para que o empreendedor obtenha sucesso em seu negócio?

João Martins – Acreditamos que essa receita inicia primeiro por uma característica comportamental do empreendedor. Acho que o perfil empreendedor pesa muito aí, a iniciativa, a proatividade, o acreditar e o iniciar a caminhada que objetiva o cumprimento de um sonho. Mas, é necessário que busque as ferramentas, que busque os mecanismos que possam ajudá-lo a chegar lá e cumprir seu objetivo. E um desses mecanismos principais são as informações preliminares, são as informações que ele pode buscar lá no início, numa prospecção de mercado. Ele precisa saber qual é o cliente dele, o que é que esse cliente precisa para que ele possa oferecer um produto ou serviço que possa ser atrativo para esse potencial cliente que é foco do trabalho dele.

O Estado – A Pesquisa GEM revelou ainda que dos empreendedores identificados, 14% procuraram algum órgão público ou privado de apoio ao empreendedorismo. Entre esses empreendedores, 66% buscaram o Sebrae. Como o senhor avalia a participação do Sebrae nesse processo?

João Martins – É extremamente salutar esse número, porque demonstra que de três empreendedores, dois estão buscando o Sebrae procurando o Sebrae para buscar informações que possam fazer o diferencial nessa sua inciativa empreendedora. Além disso, é fundamental fazer um destaque que a missão do Sebrae é fortalecer a competitividade ente as micro e pequenas empresas para que possam  ser sustentáveis e contribuam para o país. E o Sebrae está trabalhando muito fortemente nisso por intermédio de diversas ações que são trabalhadas com os governos federal e estadual e com os municípios, através do Prêmio Prefeito Empreendedor e ações muito fortes na questão das compras governamentais para que as micro e pequenas empresas participem das  licitações públicas, além de considerar que o Sebrae acaba sendo o referencial para o empreendedor. Entendo que isso aumenta a nossa responsabilidade e fortalece nosso trabalho no que diz respeito à obtenção desses resultados.

O Estado – Fazendo um recorte da pesquisa GEM para o Maranhão, como está o comportamento do empreendedorismo no estado?

João Martins – No Maranhão, nós podemos observar que temos um avanço muito grande no que diz respeito ao empreendedorismo. Se nós buscarmos identificar as camadas que passaram a ser incluída no processo de empreendedorismo, temos segmentos étnicos como o empreendedorismo negro que hoje proporcionalmente é o maior do Brasil. As mulheres empreendem muito também no Maranhão. O Sebrae disponibiliza ações técnicas para o apoio ao afro-empreendedorismo e para aquele que já e conhecido por todos, que está no extrato geral do número de empreendedores no estado. Verificamos que com o estabelecimento da crise, ficou evidente o crescimento de abertura de empresas e de pessoas buscando o Sebrae para ter acesso a maiores informações no sentido de se preparar.

O Estado – Qual o perfil dos empreendedores maranhenses e quais são as áreas mais procuradas?

João Martins – O empreendedor maranhense se encontra mais na área de comercio e serviços, especificamente no varejo de alimentações e de confecções e vestuário. Além de se ter um número significativo no serviço de estética que é uma crescente no Brasil e o ramo de construção civil. Se formos detalhar mais, precisamos fazer um registro dos números do Micro Empreendedor Individual, que hoje no estado do Maranhão temos o quantitativo de 78 mil/mês. Significa dizer que se está trazendo uma grande parcela de empreendedores para a formalização, contribuindo para a geração de emprego formal e para a arrecadação do estado.

O Estado – Na atual conjuntura de crise, que mensagem o senhor deixa para quem pensa em empreender?

João Martins – A crise, nós costumamos afirmar e repetir que ela é um processo cíclico que se estabelece por algum desequilíbrio que pode acontecer dentro ou fora do país e isso acaba repercutindo em todas as instâncias. Mas existe também o ponto de equilíbrio, o declínio dessa crise. Acho que a mensagem nossa para quem pretende empreender é justamente pensar no declínio da crise. Nesse momento, nós devemos orientar os empreendedores para que tenham primeiro um estudo de mercado, compreender de que forma podem contribuir e até que ponto avançar para não comprometer suas reservas e seu esforço e ânimo para empreender, porque pode acontecer de a coisa não da certo num primeiro momento. Se bem que o empreendedor é perseverante, é persistente. Mas, se ele tiver informações acerca do mercado, as ferramentas necessárias para que possa empreender, se buscar treinamento e conhecimento específico de gestão, de tecnologia, de inovação e, principalmente, para que ele tenha um atendimento diferenciado. Pois, o que vai estabelecer uma fidelização na relação empreendedor e consumidor é um atendimento diferenciado. É isso que é vai prender o consumidor e vai fazer com que o empreendimento se torne sustentável e que vai contribuir para que o Brasil, estados municípios respondam a essa situação conjuntural de crise econômica com geração de emprego e com oferta de produtos e serviços de qualidade. Embora estejamos numa situação de cautela, a nossa mensagem é de otimismo.

Entrevista extraída da edição de 12-13/03/2016, do Jornal O Estado do Maranhão.

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